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Para quê meditar?

A meditação na sua concepção e entendimento oriental (zen budismo) carece de uma visão sobre o quem somos e o que somos, um pouco diferente da que nos incutem no “pensamento ocidental”.

A expressão “vamos meditar sobre o assunto” pouco ou nada tem a ver este tipo de prática. Este princípio do “penso logo existo”, que implica que apenas existo enquanto ser pensante, leva-nos para um vício de analisar e julgar constantemente tudo e todos. Este hábito envolve-nos numa espiral “pensante” que facilmente leva a sentimentos de impotência, desespero e depressão.

Uma mente que só existe se estiver constantemente a produzir pensamentos, raciocínios, julgamentos de valor, previsões, avaliações, etc. acaba por tornar-se numa mente que vive numa realidade muito própria.

Sim, a realidade em que vivemos, é só nossa, na medida em que o que eu vejo, sinto ou percepciono de outra forma, sou só eu que o consigo fazer. Mesmo estando ao lado de alguém, a minha percepção da realidade é sempre diferente da de quem está ao meu lado. Mas, há muitas coisas que partilhamos, há, por assim dizer, parte das realidades que se sobrepõem e coincidem até certo ponto.

Quem no entanto vive em constante actividade cerebral/mental pode cair numa realidade que se sobrepõe em muito pouco ou nada com a realidade daqueles com quem a poderia partilhar.

Para quê meditar então, se não é para reflectir e pensar nas coisas da vida?

Para aliviar o stress? Vejamos primeiro o que entendemos por stress. Qualquer situação que seja entendida pela nossa mente como uma ameaça ao nosso bem estar, seja ele físico ou mental. Alguém que nos ameace a integridade física causa-nos necessariamente stress, ou um problema profissional a que não sabemos dar uma resposta, etc. O stress é então uma reação mental, com expressão física (o corpo reage mediante a activação do sistema de “defesa”). Hoje em dia é consensual que é a ação do sistema nervoso autónomo que activa reações físicas consoante o estado de stress que a nossa mente percepciona (sistema simpático e parassimpático).

A ansiedade é uma consequência de um elevado nível de stress acumulado. A acumulação deste stress, quando o factor stressante não está fisicamente presente de uma forma constante e prolongada (como é o caso de situações de guerra), deve-se, muito à forma como utilizamos a nossa mente.

A meditação pode ajudar a treinar essa capacidade de nos libertar-mos de um pensamento constante, em que, na nossa realidade muito própria, as coisas acontecem, sem realmente acontecerem.

Mas … se meditarmos a pensar em nos libertarmos deste vício, já não estamos a meditar, mas sim novamente apanhados pela nossa realidade própria.

Não nos podemos libertar dos pensamentos, pois eles fazem o que nós somos. Podemos decidir ignorar esses pensamentos (como fazemos com muitas outras coisas) e permanecer na “realidade partilhada”, que só existe no momento.

Meditar, é permanecer o mais possível no momento, abrindo mão dos nossos pensamentos. Permanecer no momento, é estar em constante movimento.

Sobre o tempo

Podemos ver o tempo mediante duas perspectivas (pelo menos):

  • a visão comum do mundo moderno : o tempo é visto como algo que vem do passado, passa pelo presente e continua para o futuro. Assim podemos olhar para o tempo no passado, no presente e no futuro. A nossa mente posiciona-se em qualquer uma destas situações e inicia a processar pensamentos de acordo com isso.
  • a segunda visão, mas associada ao oriente / Budismo, considera que o tempo só existe no presente. O passado e o futuro fazem parte do presente. Podemos apenas olhar para eles a partir do presente. Desta forma o passado e o futuro estão, também eles, em constante mutação em função do momento presente. A forma como percepcionamos algo no passado hoje, é diferente com a iremos ver amanhã, o mesmo sucede em relação ao futuro.

Imagine que está a conduzir um carro, à nossa frente está o futuro, atrás fica o passado. Se não estivermos com atenção ao presente iremos comprometer a nossa integridade, bem como o passado e o futuro.

Treinar para percepcionar o presente, passado e futuro desta forma é o que se faz na meditação (zazen).

Meditar é uma forma de nos habituarmos a estar mais presentes, e partilhar mais a nossa realidade com quem o podemos fazer.

Não nos torna necessariamente mais felizes, mais ricos, “apenas” mais presentes.

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